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Elementos da Cultura Negra

 

Curso de Pós-gradução

História Africana e Afro-Brasileira

Disciplina

Estado, Sociedade e Desigualdade Racial no Brasil


TRABALHO DE CONCLUSÃO

Da Serra da Barriga ao Cerro de Porongos e os Conflitos nos Territórios da Memória e identidade

Luiz Cláudio Nunes Knierim

PORTO ALEGRE

- 2009 -

 

MEMÓRIA E IDENTIDADE: Escolhas e Esquecimentos

Luiz Claudio Nunes Knierim[1]

Quando se rememora o passado, quando se cultua uma tradição, se presentifica as lembranças, enfim, quando se constrói um vínculo simbólico entre passado e presente, acabamos constituindo um sentido social e existencial da memória. Pois o objetivo desse artigo é refletirmos sobre a formação do movimento negro contemporâneo no Rio Grande do Sul, as escolhas e as estratégias empregadas pelos “atores sociais” daquele momento para reconstruir e ressignifircar a história, a memória e a identidade dos negros.

Conforme Fernando Catroga,[2] “a memória individual é formada pela coexistência, tensional e nem sempre pacífica, de várias memórias (pessoais, familiares, grupais, regionais, nacionais etc.) em permanente construção devido à incessante mudança do presente em passado e às conseqüentes alterações ocorridas no campo das representações do pretérito”. Ele diz ainda que “a formação do eu de cada indivíduo será, assim, inseparável da maneira como ele se relaciona com os valores da (s) sociedade (s) e grupo (s) em que se situa e do modo como à luz ao seu passado, organiza o seu percurso como projecto[3].

Esse autor assim como Jacques Le Goff afirmam que a memória não é um armazém, um depósito de acumulação de todos acontecimentos vividos por um indivíduo ou uma sociedade, condicionamento e influências de toda ordem impõem que a memória seja sempre seletiva, determinando, através do esquecimento, somente uma parte do que já passou seja recordado ou lembrado. Fernando Catroga conclui que “às predisposições que condicionam os indivíduos a selecionar o seu passado, processo psicológico em que as escolhas são sempre acompanhadas pelo que se olvida, pois, quer se queira quer não, escolher é também esquecer, silenciar e excluir ”[4].

Deivison Cezar de Campos[5] em seu estudo sobre o surgimento do chamado movimento negro contemporâneo, na década de 70 e o Grupo Palmares especificamente, que se estruturou a partir da proposta de substituir o 13 de maio pelo 20 de novembro, como principal dia de comemoração e protesto para os negros brasileiros, nesse momento fez suas escolhas e essa seleção vai ser determinante no futuro desse movimento. Catroga, citando Ricoeur, afirma que “recordar é, não só seleccionar e esquecer, mas também uma operação de resgate, e aqui a memória adquire o estatuto de fazer justiça no presente daquilo que foi esquecido no passado” [6] .

Então o Grupo Palmares a partir desse contexto construiu a alternativa de reconquista e afirmação de uma identidade positiva e comprometida, através da construção do mito de Zumbi, um herói negro, a Serra da Barriga como um território de resistência sacralizado e o 20 de novembro como uma data a ser celebrada em todo o território nacional. Através de uma revisão da historiografia oficial “buscando proteger a tradição e a história negra”, o Grupo colocava a experiência de Palmares no centro de suas proposições[7].

No entanto, aqui no Rio Grande do Sul, essas escolhas irão provocar conseqüências posteriormente, quando, em 2004, constitui-se junto a Secretaria de Estado da Cultura e entidades do movimento negro, uma comissão responsável por organizar as “comemorações” dos 160 anos do Massacre dos Lanceiros Negros, no final da Guerra Farroupilha. Esse fato acaba expondo algumas contradições e ambigüidades decorrentes das diferentes visões e interpretações da memória e identidade negra construídas por setores do movimento negro. O território evocado para essa celebração não era mais a Serra da Barriga, em Alagoas, e sim o Cerro dos Porongos, no município de Pinheiro Machado, Rio Grande do Sul, o herói a ser resgatado e justiçado não era Zumbi e sim os Lanceiros Negros que foram covardemente traídos e massacrados no final daquele conflito. Os elementos simbólicos e as referências construídas por décadas não tiveram tempo suficiente para serem reelaborados a partir dos novos parâmetros que se colocavam naquele momento, e este foi um dos motivos dos problemas ocorridos nessa celebração.

Uma das discussões travadas no interior dessa comissão foi sobre a contratação de um cozinheiro profissional da Bahia para preparar os “pratos de origem africana” que seriam servidos a todas as pessoas do estado presentes na solenidade de lançamento do Projeto do Memorial em Pinheiro Machado, como se não existisse na cidade cozinheiros e cozinheiras com habilidades suficiente para preparar aquele almoço típico. Um outro conflito ocorreu no dia da celebração, quando um Grupo de cavalarianos negros de Porto Alegre foi agredido verbalmente por setores do movimento negro, sendo chamados de traidores, por estarem vestindo bombacha. Desse episódio nasce um manifesto que será uma espécie de carta de fundação do Piquete de Lanceiros Negros Contemporâneos, que em parte dá uma resposta aquelas agressões. Diz o manifesto intitulado “Os Negros e o Gauchismo”:

“Nós, Lanceiros Negros Contemporâneos, somos negros que nos identificamos com o gauchismo, não necessariamente com o tradicionalismo, que é uma construção da sociedade moderna mais recente, 1948, mas com aquela cultura gaúcha que foi construída desde o início do século XV, por espanhóis, pelos povos nativos, por portugueses e também por negros. No transcurso do processo histórico de construção dessa cultura, fomos perdendo o vínculo com o gauchismo até o ponto de não nos identificarmos mais com ele. Agora estamos procurando nos re-apropriar da cultura que juntos construímos.

 Respeitamos os negros que expressam sua negritude usando o cabelo rastafari ou ainda a colorida bata tipo africana, os que curtem um “reggae”, jamaicano ou não, um samba ou um pagode, participam do movimento hip-hop, ou praticam a capoeira, ou procuram a sua identidade em outras matrizes culturais africana, baiana etc. O que queremos manifestar é que também nos respeitem como negros gaúchos ou gaúchos negros, visto que acreditamos que tudo o que foi construído neste estado tem o braço e a participação do negro, inclusive essa cultura gauchesca que se impõe hegemonicamente no Rio Grande do Sul. Estamos pesquisando e estudando profundamente esse assunto, pois acreditamos também que, ao olharmos para dentro de nós mesmos e para a nossa história, vamos perceber que a cultura do gaúcho riograndense e platino está eivada da contribuição dos nossos negros, seja na culinária campeira ou gaúcha, seja com as inúmeras palavras africanas do Bantu incorporadas ao linguajar gauchesco como cacimba, sanga, matungo, mondongo, etc, seja na musicalidade regionalista aqui do sul com a nossa milonga que é afro-argentina ou com a nossa vanera que é afro-cubana, em tudo percebemos a participação e a contribuição dos negros. Com isso tudo nos identificamos e queremos ser respeitados por isso.

 Firmamos essas premissas porque, por várias vezes, fomos desrespeitados por alguns de nossos irmãos que certamente desconhecem a nossa história, a história do Rio Grande. Pessoalmente nos dirigiram afirmações agressivas, carregadas de ódio e preconceito, tais como: “Não tem vergonha de andar de bombacha”, “Esses de bombacha foram os que mataram os nossos irmãos negros”, “Isso é roupa de branco; negro que tem vergonha na cara não usa bombacha” etc...

 Gostaríamos de esclarecer a essas pessoas que os Farroupilhas nunca usaram bombacha. Segundo Tau Golin, essa peça da indumentária gaúcha foi introduzida aqui no sul apenas em 1865, com a Guerra do Paraguai. Fabricada pelos ingleses, era uma peça do uniforme da cavalaria turca que havia sobrado da guerra da Criméia, turcos contra russos. A bombacha foi vendida para as tropas da Tríplice Aliança –Uruguai, Argentina e Brasil-Rio Grande do Sul e, por essa razão, ela, a bombacha, faz parte da indumentária dos gaúchos destas três pátrias.

 Da mesma forma, gostaríamos de dizer que os Farroupilhas não se tratavam por gaúchos. Se pesquisarem profundamente nos documentos da época, inclusive nos exemplares dos três Jornais Republicanos publicados naquele decênio (1835-1845), perceberão que eles se tratavam como compatriotas, republicanos etc, nunca como gaúchos, visto que esta palavra naquele período trazia um conceito pejorativo e discriminatório em relação aos “verdadeiros gaúchos” que eram, segundo inúmeros historiadores, um grupo social que vivia fora da lei e tratava com descaso as autoridades constituídas da época. Formado por desertores ou fugitivos dos exércitos português ou espanhol, índios guaranis evadidos da Reduções Missioneiras, por todo tipo de marginalizados da sociedade, sem pátria e sem lar, viviam das arreadas ou califórnias, caçando o gado selvagem, carneando apenas para retirar o couro e o sebo que tinham valor comercial. Muitos negros forros ou fugitivos das charqueadas e estâncias conviviam com esses bandos de gaúchos, que, no final do século XIX, acabaram desaparecendo do nosso pampa, integraram-se ao sistema, passaram a trabalhar como peões para estancieiros da região. Como podemos ver, negros e gaúchos estavam juntos nesta vida de excluídos da sociedade.

 Portanto, não se pode reduzir a construção de uma cultura a um único e pequeno episódio, que durou menos de dez anos, de toda a história do Rio Grande do Sul, a Guerra Farroupilha. Não, a cultura de que estamos falando se constrói num longo processo histórico de ocupação deste território, em que o negro sempre esteve presente, como já falamos no início. O gauchismo continua se reconstruindo e se resignificando a cada dia. Nós,  Lanceiros Negros Contemporâneos, queremos fazer parte desta história, nos reencontrar com o nosso passado e redescobrir os laços que nos ligam a essa cultura gauchesca que também nos pertence e que muito nos orgulha porque em muito contribuímos para a sua existência”.[8]

Como sabemos que o estabelecimento das representações em relação às identidades não é algo pacífico, muito menos consensual, pois cada grupo ou indivíduo se compreende de uma determinada forma, assim como sabemos que a legitimação de uma determinada identidade passa por uma relação conflituosa, inclusive pela desqualificação de outras, as questões lançadas acima não são de fácil resolução. Nesse sentido, Fernando Catroga afirma que “a historiografia, com as suas escolhas, valorizações e esquecimentos, também gera a “fabricação” de memórias, pois contribui, através do seu cariz narrativo e de cumplicidade, directa ou indirecta, com o sistema educativo, para o apagamento ou secundarização de memórias anteriores, bem como para a refundação, socialização e interiorização de novas memórias.

A historiografia também funciona como fonte produtora (e legitimadora) de memória e tradições, chegando mesmo a fornecer credibilidade científica a novos mitos de (re)fundação de grupos e da própria nação (reinvenção e sacralização das origens e de momentos de grandeza simbolizados em “heróis” individuais e colectivos)”[9].

No Rio Grande do Sul, esse processo de construção da escrita da história oficial positivista, por muito tempo se afirmará a pouca importância que o negro teve dentro do modelo produtivo do pastoreio, e para formação do “tipo étnico do gaúcho”. Mário Maestri em seu artigo[10] “O negro e o imaginário étnico gaúcho” afirma que os nossos historiadores através de uma leitura idílica do passado ignoram a presença dos escravos quando analisaram de forma superficial as fazendas sulinas, construindo e consolidando o mito de uma sociedade produto do trabalho livre e branco, expurgando o escravo da produção pastoril, uma cirurgia plástica historiográfica patrocinada pela elite”.

No entanto, estudos acadêmicos mais recentes como o de Cristiane de Quadros Bortolli[11], que analisa a escravidão no Planalto Médio gaúcho no período de 1850-1888, encontrando forte presença de cativos e seu valor econômico no contexto sociopolítico, assim como o trabalho exaustivo de Regina Célia Lima Xavier[12], que organizou um guia bibliográfico catalogando 851 títulos, incluindo livros, dissertações, teses e artigos acadêmicos apresentados em congressos, comprovação material da existência de trabalhos que reconhecem a presença do negro e do escravo no espaço rio-grandense, e as afirmações sobre a negação ou invisibilidade do negro na formação da sociedade do Estado do Rio Grande do Sul, hoje, não são muito procedentes.

Por outro lado, os manifestos do Grupo Palmares afirmam a narrativa discursiva que a estrutura dominante “negou o acesso da população negra ao seu passado, ignorando sua cultura” e por tanto havia a necessidade de buscar e reavivar “as verdadeiras raízes culturais do negro brasileiro” aponta Deivison Campos[13].

No entanto, embora Oliveira Silveira, um dos idealizadores do Grupo Palmares, tenha uma produção poética com características regionalistas, o Grupo propõe a construção de uma identidade negra que não incorpora e até nega os elementos simbólicos do gauchismo, que existem e são muito fortes na área da música regional, da culinária típica gaúcha e do linguajar gauchesco, isso por que a identidade que o Grupo propõe está alicerçada na crença da existência de uma África mítica, na atualização do papel de resistência negra no processo histórico brasileiro, na influência vindas das diásporas e do processo de globalização que traz junto com bens de consumo, bens simbólicos, idéias e práticas culturais e políticas de grupos negros do exterior, conforme conclui Deivison Campos[14].

Em “A parte e o todo” Ruben Oliven[15], nos afirma que o regionalismo pode ser encarado como um campo de disputas, no qual grupos com diferentes posições e interesses se enfrentam. Nesse sentido, Bourdieu, argumenta que as lutas a propósito da identidade regional se constituem num caso particular de lutas de classificação, lutas pelo monopólio de impor a definição legítima da divisão do mundo social.

Ruben Oliven[16], diz que o tipo representativo do Rio Grande do Sul continua a ser a figura do gaúcho da Campanha como teria existido no passado e se a construção dessa identidade tende a exaltar a figura do gaúcho em detrimento dos descendentes dos colonos alemães e italianos, ela faz de modo mais excludente ainda em relação ao negro e ao índio que comparecem no nível das representações de uma forma extremamente pálida. Se há em outros estados, como a Bahia, e mesmo no Brasil as contribuições dos negros aparecem como formadoras da identidade, no Rio Grande do Sul a sua imagem é relegada a um segundo plano reafirma o antropólogo[17].

Nação e tradição são recortes da realidade, categorias para classificar pessoas e espaços e, por conseguinte, formas de demarcar fronteiras e limites. Elas funcionam como pontos de referência básicos em torno dos quais se aglutinam identidades. Identidades são construções sociais formuladas a partir de diferenças reais ou inventadas que operam como diacríticos, isto é, sinais que conferem uma marca de distinção, destaca Rubem Olivem.

Da mesma maneira Fernando Catroga diz que “em nome de uma história, ou de um patrimônio comum (espiritual e/ou material), a memória visa inserir os indivíduos em cadeias de filiação identitária, distinguindo-os e diferenciando-os em relação a outros”[18] [...] e alerta que “dentro de uma mesma sociedade, as identidade são multiplas e, comummente, alternativas e conflituosas (memórias de família, locais, de classe, nacionais etc.)[19]”.

Ruben Oliven[20], diz que Roger Bastide desenvolveu o conceito de reinterpretação, mostrando como um grupo pode atribuir um novo significado a uma expressão cultural nos termos de seu próprio sistema simbólico. Esse processo em certa medida ocorreu com a culinária regional gaúcha, os pratos com denominação em língua Banto, que eram elaborados pelos negros e negras, para a alimentação de peões e escravos, ou seja, classes subalternas, ao mudarem de território, do terreiro para o CTG, além de ganharem um carimbo tchê, perderam nesse processo transitório a marca identitária da contribuição negra, inclusive a maioria deles perderam a sua denominação em língua africana.

Em segundo lugar, embora o antropólogo Jean-Loup Métisses, diga que não existe uma fronteira nítida ou firme entre os grupos e sim um continum cultural, no que se refere ao sistema alimentar dos grupos sociais, ele diz que são construções históricas constituídas por um conjunto de símbolos e códigos que se transformam em marcas identitárias, que estabelecem alguns limites e fronteiras que os separa e os distingue. Nesse sentido, por exemplo, tanto a culinária gauchesca como a culinária de matriz africana, apresentam características próprias e singulares, que constituem as marcas identárias de cada grupo social, mas por outro lado observamos também que muitos elementos simbólicos são compartilhados pelos dois grupos sociais.

Mas se a antropóloga Eunice Maciel[21] compreende que “a identidade social como um processo dinâmico relacionado a um projeto coletivo que inclui uma constante reconstrução, e não como algo dado e imutável”, uma pergunta que fica suspensa é, por que esses grupos sociais distintos não conseguem reconhecer na sua culinária, na sua música e nas suas práticas as inúmeras semelhanças existentes entre si ?

CONCLUSÃO

Podemos afirmar ao concluir esse artigo que no estado do Rio Grande do Sul processo histórico produziu por um lado o apagamento da história e das memórias de matriz africana e por outro, o grupo identificado com a identidade gauchesca nesse processo histórico vai se apropriando de diversas contribuições dos povos africanos, retirando ou minimizando suas marcas identitárias e colocando no lugar dessas, uma denominação ou “carimbo tchê”.

A memória possui um capital simbólico que tem o objetivo de provocar recordações, através de estratégias explícitas ou não daquilo que se pretende esquecer ou lembrar. Esse processo fica mais evidente quando observamos a memória institucionalizada e sacralizada pelo poder do Estado, que se transforma em instrumento e objeto de coerção coletiva, quando considera uma parcela do passado, ou determinado segmento social evocado e monumentalizado, em detrimento de outros. Nesse sentido, os livros, as celebrações e a monumentalização quando produzidas pelo Estado, transformam-se em instrumentos legitimadores de uma narrativa postulada pela história positivista, hoje atualizada pelo movimento tradicionalista.

A história como produção intelectual e “científica” faz uso da memória coletiva, social ou da própria memória histórica em uma nova leitura ou re-interpretação dos fatos. Inventamos o passado, criamos realidades no pensamento ao evocar o que não pode mais ser verificável. O passado é trazido para o presente e é reconstruído através de uma operação imaginária de sentidos. Nesse momento em que a história se articula com a memória social estabelecida de maneira voluntária ou não, e animada pelo desejo de ”reconstruir o passado”, a história se apropria da memória articulando discursos e imagens, elaborando versões convincentes e coniventes, legitimadas por instituições. A Educação, o Estado e a historiografia são legitimadores da memória no momento em que sacralizam o que deve ser lembrado, aquilo que deve ser esquecido, quem é que deve ser relembrado, que versão do passado se registra ou se preserva e por quê.

É justamente respondendo a essas questões que vamos compreender as razões que levaram os formuladores do movimento negro a não revelar, por exemplo, as memórias de Garibaldi, onde ele relata os valores e a coragem dos lanceiros negros, a não mencionar a existência de oficiais negros no exército farroupilha, a não destacar a participação ativa dos negros na construção de uma cultura gaúcha, hoje hegemonizada pelos brancos.  Cada um desses exemplos mencionados acima são memórias históricas que têm as suas características, sentidos e valores simbólicos. Nesse caso, esses esquecimentos estão diretamente ligados a questões ideológicas e interpretativas relacionadas aos sentimentos de pertencimento e identidade que fizeram com que o movimento negro, julgasse que não era necessário torná-los memória social o que ainda é hoje esquecimento para a maioria, não dando voz a uma minoria, não dando luz aos negros excluídos da história e da memória coletiva, fincando preso a alguns conceitos e das narrativas presentes na historiografia tradicional.

O Cerro de Porongos, naquele ano de 2004, não foi apenas uma referência geográfica e simbólica para onde convergiram milhares de pessoas que compartilharam as celebrações dos 160 anos do Massacre dos Lanceiros Negros, mas sim um lugar de memória e uma referência cultural de onde irradiou as práticas e as representações coletivas do povo negro, como a criação do Piquete de Lanceiros Negros, um grupo identificado com o gauchismo, que há sete anos organiza a Cavalgada e o Acampamento da Consciência Negra que se tornou referência em Porto Alegre, constituindo-se como um marco de abertura da Semana da Consciência Negra no Parque Estância da Harmonia, hoje apoiado pelo Movimento Negro.

Em resumo, como afirma Catroga “a historiografia também funciona como fonte produtora (e legitimadora) de memórias e tradições, chegando a fornecer credibilidade cientificista a novos mitos de (re)fundação de grupos e da própria nação (reinvenção e sacralização das origens e de momentos de grandeza simbolizados em ”heróis” individuais e coletivos)”. Stuart Hall vai dizer que as identidades culturais tem a sua própria história, e como um discurso histórico sofrem transformações constantes, e o Cerro de Porongos e os Lanceiros Negros, para um número significativo de negros, transformou-se numa grande referência como a Serra da Barriga e Zumbi dos Palmares.

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

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Ao re-visitarmos os muitos significados atribuídos à memória, é obrigatório partimos das considerações seminais de Maurice Halbwachs, para quem o conceito deve ser entendido enquanto um conjunto de representações coletivas. Nesta perspectiva, três são as principais características da memória:

[...] a crença de que memórias só podem ser pensadas em termos de convenções sociais, denominadas quadros sociais da memória; a abordagem a estas convenções a partir do mundo empírico observável, distante, portanto, das intenções dos indivíduos; e, as afirmações de que o passado que existe é apenas aquele que é reconstruído continuamente no presente. (2004, p. 107 )

 p. 235

Tomando essas posições, “afirma-se assim uma nova identidade negra resistente e com representações relativas a um novo “mundo negro” baseado numa tradição reelaborada e reinventada e, também, na representação de uma África mítica” p. 235.

A influência global também é conseqüência dessa abertura do país ao mercado internacional. Junto com os bens de consumo entram os bens simbólicos, idéias e práticas culturais e políticas de grupos e movimentos negros das américas e do continente africano. p. 236.

Ocorre também através de canções de movimentos como o reggae, que anunciam o ressurgimento de um grande império negro na África e pregam a volta ao continente de origem. Se o retorno não acontece na prática, reforça simbolicamente o processo de reafricanização dos negros. p. 236. (constrói-se um novo território simbólico negro.

 

Saint-Hilaire, Auguste de. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília, Senado Federal, 2002.

 

Bento, Cláudio Moreira. O negro e descendentes na sociedade do Rio Grande do Sul (1635-1975).Porto Alegre, IEL/DAC/SEC, 1976.

 

Todo arrazoado desenvolvido por Mário Maestri apresenta algumas contradições se formos fazer uma revisão mais detalhada em parte dessa historiografia tradicionalista apontada pelo autor.

A historiografia tradicionalista idealizou um campo de valentias, honradez e bondade de caráter. Dentro da estância, construíram um ambiente democrático em que a autoridade do estancieiro se constituía a partir do seu valor como líder militar e como referência no trabalho do campo, onde todo mundo “trabalhava junto”. A escravidão, uma forma mais dura de exploração do trabalho. Do ponto de vista econômico, jurídico e social não há diferenciação entre os escravos saladeiros, urbanos ou rurais.

Em todas as situações de escravidão, os expedientes de repressão, violência física e moral, são usados.

A literatura rio-grandense através da lenda do Negrinho do Pastoreio e a história do Negro Bonifácio, possivelmente forro, ambas descritas por Simões Lopes Neto, deixam claras as relações entre negros e brancos no espaço da estância. Não se trata apenas da opressão do branco sobre o negro, mas do livre sobre o escravo.

O próprio historiador Claudio Moreira Bento afirma que desde o primeiro momento, os negros exerceram esse duplo oficio, de peão e de soldado, na condição de escravo ou liberto. Na fundação da Colônia do Sacramento em 1680, Claudio Moreira Bento registra que,

havia entre os portugueses vindos do Rio de Janeiro 200 militares, 3 padres, 60 negros, dos quais 41 escravos do comandante, 6 mulheres índias. Os negros representaram mais de 20% do total da expedição, não considerados nesta percentagem os negros e mulatos livres e soldados ( P.55).³

Quando João Magalhães comandou a “Frota dos 31 Lagunistas”, em 1725, a primeira expedição oficial ao Rio Grande a mando da Coroa portuguesa, ela era composta, na maioria, por “pretos mestiços desta raça." (Claudio Moreira Bento) P.57. A participação dos negros nessas lutas é frisada pelo autor, que relata os seguintes exemplos:

No Rio Grande do sul, em fins do século 18 e começos do 19, o negro foi um dos arquitetos da sociedade rural e militar nesta região através de prolongadas lutas. ”p. 61 Moreira citando Arthur Ramos

Toda esta expansão foi acompanhada por constantes combates, refregas, escaramuças e entreveros, nos quais “o negro deu mais do que sua simples participação”p.63 Cel.Francisco Ruas Santos também por Moreira Bento.

Com Silva Paes, em 1737, na cidade do Rio Grande, a primeira do Estado; ou com as tropas portuguesas e espanholas na destruição das Missões; ou na chamada Revolução Farroupilha; ou na Guerra do Paraguai, em 1893; enfim, em todos momentos importantes da vida política e militar do Estado, os negros estavam lutando. Nos casos de guerra civil, estavam presentes em todos os lados.

Na pampa, o gado era criado de maneira extensiva, sendo solto pelas grandes extensões das estâncias, que chegavam a ter 70 léguas quadradas. Para dar conta desse trabalho, cada peão possuía seu cavalo, mesmo mulheres e crianças não andavam a pé. No livro Viagem ao Rio Grande do Sul, Saint-Hilaire relata que, mesmo o negro mais pobre, tinha seu cavalo. Em vários trechos ele dá conta da facilidade de movimentação dos negros rurais. A mobilidade era uma característica necessária ao tipo de trabalho exercido pelo peão–soldado-escravo. De forma geral, ele diz que também os donos de terras e senhores de escravos não viviam em meio ao luxo e, ao contrario de outras regiões, não possuíam uma cultura de “vagabundagem aristocrática”. No comando das tropas, os estancieiros tinham que dar demonstrações de coragem. Na Campanha, em guerras contínuas, o principal status era dado pela manifestação da valentia. Por mais terras, dinheiro ou poder que o indivíduo tivesse, seria alvo do desprezo coletivo, caso, na hora da batalha, revelasse ser um “frouxo”.

No II Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil meridional, ocorrido em Porto Alegre no ano de 2005, Luis Augusto Farinatti apresentou um trabalho “Nos rodeios e roças e em tudo mais, trabalhadores e escravos nas campanhas riograndenses”, em que traz informações detalhadas sobre os ofícios exercidos pelos escravos, destacando-se numericamente o trabalho de campeiro[22].

 Da mesma forma, a historiadora Ieda Gutfriend,[23] em sua tese de doutorado, analisando a obra de diversos historiadores sul-riograndenses nos mostra que a historiografia gaúcha de matriz lusitana, apesar de reconhecer a presença do escravo na história do estado, ela insiste em afirmar a pouca importância que esse negro teve dentro do modelo produtivo do pastoreio, e para formação do “tipo étnico do gaúcho”.

A construção da cozinha de qualquer unidade de pertencimento, seja um país, seja uma região, um grupo étnico ou outro conjunto, segue caminhos diferentes, dadas as suas condições históricas. Assim, ao se focalizar essas cozinhas deve-se, necessariamente, levar em consideração o processo histórico-cultural, contextualizando e particularizando sua existência, essa é uma questão observada por Eunice Maciel[24].

  p.53

Enfim, múltiplas são as questões que envolvem a construção de identidades sociais. Aqui traçamos apenas algumas delas, procurando sublinhar que a identidade não pode ser vista como uma constante imutável, já dada, mas como algo que se transforma e que pode assumir múltiplos sentidos.



[1] Pós-graduando em História da África e Estudos Afro-brasileiros.

[2] CATROGA, Fernando. Memória, história e historiografia. Coimbra. Editorial, 2001. p. 16.

[3] Ibid. p. 20.

[4] Ibid. p. 26.

[5] Campos, Deivison Moacir Cezar de. A ressignificação de Palmares: uma história de resistência. In: RS Negro: Cartografias sobre a produção do conhecimento. Porto Alegre. Edipucrs, 2008. p. 234.

[6] CATROGA, Fernando. Memória, história e historiografia. Coimbra. Editorial, 2001. p. 26.

[7] Campos, Deivison Moacir Cezar de. A ressignificação de Palmares: uma história de resistência. In: RS Negro: Cartografias sobre a produção do conhecimento. Porto Alegre. Edipucrs, 2008. p. 240.

[8] Manifestos dos Lanceiros Negros Contemporâneos escrito em 14 de novembro de 2004.

[9] CATROGA, Fernando. Memória, história e historiografia. Coimbra. Editorial, 2001. p. 57.

[10] MAESTRI, Mário. O negro e o imaginário étnico gaúcho. In Diversidade étnica e identidade gaúcha. Revista Documentos nº 5. Santa Cruz do Sul: Editora da UNISC, 1994. p. 134 e 135.

[11] BORTOLLI, Cristiane de Quadros de. Vestígios do Passado: a escravidão no planalto médio gaúcho. – Passo Fundo: Editora UPF, 2003.

[12] Xavier, Regina Célia Lima. História da Escravidão e da liberdade no Brasil Meridional: Guia Bibliográfico. Editora da UFRGS. Porto Alegre, 2007

[13] Campos, Deivison Moacir Cezar de. A ressignificação de Palmares: uma história de resistência. In: RS Negro: Cartografias sobre a produção do conhecimento. Porto Alegre. Edipucrs, 2008. p. 239.

[14] Ibid. p. 235, p. 236 e p. 238.

[15] OLIVEN, Ruben George. A parte e o todo – A diversidade cultural no Brasil-nação. Petrópolis – RJ. Editora Vozes, 2006. p. 25.

[16] OLIVEN, Ruben George. A parte e o todo – A diversidade cultural no Brasil-nação. Petrópolis – RJ. Editora Vozes, 2006. Ibid., p. 155.

[17] OLIVEN, Ruben George. A parte e o todo – A diversidade cultural no Brasil-nação. Petrópolis – RJ. Editora Vozes, 2006. p. 157.

[18] CATROGA, Fernando. Memória, história e historiografia. Coimbra. Editorial, 2001. p. 26.

[19] Ibid. p. 56.

[20] OLIVEN, Ruben George. A parte e o todo – A diversidade cultural no Brasil-nação. Petrópolis – RJ. Editora Vozes, 2006. p. 170.

MACIEL, Maria Eunice. Identidade Cultural e Alimentação. Antropologia e Nutrição: um diálogo possível. Rio de Janeiro – RJ. Editora Fiocruz, 2005. p.49.

2.Sem que tenhamos nos aprofundado na questão, acreditamos que a denominação vaqueiro/campeiro são apenas variações regionais para denominar o trabalhador que lida diretamente com o gado. FARINATTI, Luis Augusto Ebling. Nos rodeios, nas roças e em tudo mais, trabalhadores escravos nas campanhas rio-grandenses (1831-1870). In: II Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil meridional, 2005, Porto Alegre. Anais: Artigo apresentado como comunicação e publicado na íntegra em CD-ROM.

 

[23] GUTFRIEND, Ieda. A historiografia Rio-grandense, 2ª edição. Ed. Universidade-UFRGS. Porto Alegre, 1998.

[24] Ibid., p. 49.

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